quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cardiopoética

(a que dá nome ao blog)



Minha veia poética não é cava
antes aorta torta e obstruída
antes safena em plena cirurgia
antes infarto do que parto
na difícil escolha pela vida...

E não se iluda o peito ainda pulsante
que onde fluía um dia a verve amor
já nada presta e resta a dor apenas
que silencia a poesia
mas, mesmo morto, o peito sente dor... 




© Reinaldo Luciano - Direitos Autorais Reservados

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Dia de Finados e outros poemas moribundos (I)

Dia de Finados e outros poemas moribundos (I)


Não irei chorar teu corpo morto
e não te darei flores, reza ou vela...
E a tristeza não trará de volta ao porto
aquele que partiu... ou mesmo aquela!
Não hei de te chorar porque é novembro
porque te amei por mais que um dia
e é da tua alma viva que eu lembro!




Reinaldo Luciano © Direitos Autorais Reservados

Finados

Manhã de Finados...
Afinados com a dor da ausência
os humanos sobem aos cemitérios
e sapateiam sobre túmulos abandonados;
justificam-se e  desculpam-se
por ainda estarem vivos...

Finados...
corpos sepultos,
confinados...
De certo modo a morte é definida
assim desta forma:
Do pó ao pó...
Que gruda insistente nos sapatos
como se tentasse voltar à casa...

Finados...
Lamentos desafinados...
Arranjos de flores refinados...
Um revolver de terra
como se fosse revolvida dentro em si
a própria saudade!


Reinaldo Luciano © Direitos Autorais Reservados


Conversa morta
Pareço alguém que não se importa
em conversar com gente morta,
mas não há como fugir à realidade!
Saudade sim, mas só saudade!
Não há dor em falar seus nomes
nem em relembrar quanto vivemos...
Amigos que me foram retirados aos poucos
que eu até fingi não ter sentido...
Fingi que a morte não tinha sentido...
Que a vida não tinha sentido...
Que não tenho sentido nada;
Que nada tem sentido...

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais Reservados

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Drummondianas


No aniversário do poeta resolvi reunir minhas "Drummondianas".

Que ele não se ofenda pela qualidade (falta) de meus versos:


Simplicidade II


Sou afeito às coisas simples
aos amores simples sem mistérios
aos sofreres simples e indolores
e à calma da vida interiorana...
Não me agradam as cidades complexas
da metropolitana solidão vivida às pressas.
Sou afeito ao meu chão de interior
onde o amor nasce simples e cresce lento
e onde até o morrer não faça alarde...
Tudo é assim – simplicidade
na cidade simples em que vivo
a vida besta que Drummond cantava em poesia.

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais Reservados



Drummondiana III


Uma casa passa devagar...
Uma janela passa devagar...
Devagar um burro olha!
A vida é besta...
Mas dá um vontade!

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais reservados



Drummondiana II

(no centenário do Poeta)

Encontro-me com José
no bar da esquina,
cansado dos filhos e do trabalho.
José no baralho
discutindo futebol com propriedade de técnico...

José operário...
José epilético...
José pé-de-cana!
Um José tão bacana...
O que se deu com José?
E José tagarela sem falar coisa com coisa...
Pede outra cerveja que nem toma...

Tenho pena, José!

E levo pelos braços rua afora
um José que reclama e chora feito menino...
Um José sem destino
que eu nem sei onde mora.

“E agora, José?”
“José, para onde?”

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais Reservados



Drummondiana

Tenho a idade da pedra,
de quando medra a civilização...
A pedra lascada, polida...
A pedra lançada.
Rotunda, pontiaguda,
projetada pela funda de Davi
e derrubando Golias...
A mesma pedra
que o poeta deixou em meu caminho.
Eu que contando estrelas não a vi;
tropecei, caí numa pedra irmã.
Fiquei sem amanhã;
cheguei ao céu do eternamente...
E o porteiro, um velho conhecido,
É Pedro - a pedra que me interroga
sobre como vim parar aqui.
Solene, eu respondo ter sido a pedra esquecida,
a perda da vida...
A pedra da vida...
A pedra esquecida no caminho do poeta
“No meio do caminho tinha uma pedra”.
Se o poeta a viu, que a tirasse e, talvez
eu ficasse no caminho um pouco mais...

Lá embaixo o corpo descansa
sob uma lápide (outra pedra)...
“Descanse em paz!”

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais Reservados

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Acorrentados [2]

Estes versos que fiz acorrentados
não são meus versos - não sou eu.
Não se assenhoram mais de meus princípios,
meus meios e meus fins. Nada disso é meu
e nem eu me pertenço. Sou a revolta...
Eu sou o grito de alerta no vazio
e não me reconheço assim atado
aos sonhos enterrados nas lembranças...
As esperanças foram um desvario
e não me reconheço escravo
nem me confesso prisioneiro
de sonhos não vividos.
Não sou escravo dos sentidos
e já não tenho grilhões para partir.
Não há razão para chorar,
amar - talvez. Morrer? Não sei... Talvez dormir,
mas não me sei ou sinto prisioneiro...
A liberdade em mim quebra correntes
ainda que sangre ou morra.
E se ser livre tem um preço
é o preço que pago indiferente
sem ver quanto custa,
se a paga é justa.
Não quero mais meus pés acorrentados
ou mãos tolhidas por grilhões de outros senhores...
Resgato os meus valores
e a vida sem senões, sermões vazios.
Eu quero a liberdade e desafio
a quem tente tomá-la a qualquer sorte.
Sou branco, negro e índio, mas senzala?
Senzala é escravidão... Prefiro a morte!

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais reservados

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ao Silêncio



Publico mais uma vez, até que se convençam de que não escreveram isso. Fui eu!

Reinaldo Luciano © Ainda com meus direitos autorais.

Do tempo

("Escrevo para ouvir o silêncio
das manhãs devoradas nas alturas." - Raimundo)


O tempo absorve os homens,
seca-lhes as entranhas do sentir
e faz escorrer a seiva vida
nas marcas profundas que traz.
A vida escorre feito rio - tempo
sorvendo homens, pontes, tudo...

O tempo devora manhãs
mas o poeta protesta, silente.
Nas asas do sonho
também faz marcas, deixa traços;
escreve - de ouvido - o silêncio
e absolve o tempo
que absorve os homens.

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais reservados

Arquitortura

Por longos anos desenhaste teu projeto
em traços finos, delicados, humanistas;
arquitetaste vigas, vãos, sonho em concreto
e tantos planos transformados em conquista.

Ai, que tortura tu sofreste em teu secreto
nas muitas noites mal dormidas em que a vista
vertia lágrimas de sono e o corpo ereto
dizia: Luta, ó arquiteta, ó urbanista!

Já não desenhas mais casinhas pequeninas
e no vigor da tua plena juventude
tu te projetas, arquitetas tua sina

mas não te percas mensurando as altitudes;
foste planície... e hoje conquistas a colina.
Mais adiante hás de achar a plenitude.

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais reservados

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Soneto Nada Sentimental à Cidade de São Paulo


Xenofobia travestida em tuas ruas
contra destinos, nordestinos, diferentes
te torna exposta e sem resposta te insinuas
mas não te cegas, nem renegas estas gentes.


Te desvarias noite e dia em cores cruas
nos desatinos que aos sem tino faz doentes;
mas não te cansas - sempre avanças, não recuas...
Segues sem culpas, sem desculpas, sempre em frente.


Viste o descaso com que os rasos governantes
abarrotaram, asfaltaram as tuas veias
mas inda anseias que elas fluam como dantes...


Sopras as velas das mazelas, mas se chove
neste Janeiro (o derradeiro?), em ruas cheias,
quem não flutua e quem não voa não se move.


Reinaldo Luciano © Direitos Autorais reservados

Escrito no aniversário de São Paulo, que em 2011 não tem o que comemorar!


http://www.brasilianas.org/blog/reinaldo/soneto-nada-sentimental-a-cidade-de-sao-paulo

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Lepidóptera

Nasceu tão pequenina, feia, esquálida
e deu-se à luz, mortiça, tênue, tépida.
De lânguida expressão desde a crisálida
fadada a não vingar, ficar inválida...
Mas eis que ela se abriu assim intrépida,
se pincelou de cor nas asas pálidas
e foi de flor em flor, voando lépida.


Reinaldo Luciano © Direitos Autorais reservados