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quarta-feira, 14 de março de 2012

Vindimador




Vindimo a dor contida em cada baga
como colhesse as chagas cultivadas
na safra dos anos já vividos
e as espremesse ao fim...

Vindimo a dor toda que sinto
qual fosse sangue tinto e seco...
Suave e doce a morte,
mas não me colhe por hora;
meu eu vindimador escolhe a vida,
encolhe-se quando desatina
e pisoteia a tina desgastada...

Vindimo a dor da vida entre dois polos
tentando o equilíbrio [quase indulto]
entre a fúria cega, insana,
ou o escuro e frio solo da adega
onde meus velhos monstros oculto
enquanto a sorte não me sega...

Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados

Indizíveis



As coisas indizíveis
escrevo com neologismos
e reinvento palavras
em versos invisíveis...
Palavras não ditas,
benditas, malditas ou vazias;
um ajuntar de fonemas
da intraduzível poesia em meu poema.


Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados 

O príncipe, a donzela e o ferreiro



Um príncipe galante idealizado
surgiu charmoso, rico e inteligente
aos pés de uma donzela indiferente.
Tomou-a sem as sedas e brocados.

Fez-se Cruzado e partiu, forte e valente
na busca pelo Gral santificado.
Mas ela abominou o cadeado
do casto cinto em aço reluzente.

Tão logo ele partiu coube ao ferreiro
livrá-la da prisão, daquele entrave
e conseguiu fazer cópia da chave
em troca d'uns afagos e dinheiro.

O templário voltou, ferido e lasso
mas não vivia ali mais a "fulana".
Morava tão feliz numa choupana...
Um filho do ferreiro em cada braço...



Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados 

Sacis d’África



Vossos filhos, África! Filhos vossos
que tratais com tibieza
são sacis das minas que gerais
no solo rubro e branco – exangue e ossos
de um ódio antigo que ainda disseminais...
Desde a Namíbia a tíbia não há mais;
Disse “Minas, cuidado!”
De Angola, Argélia, Moçambique
produzis teus meninos e meninas sacis;
passado negro, futuro manco
por vossas insanas disputas sem sentido.

E tu, filho de África, irmão dessas meninas?
Nas minas que plantaste o que colheste?
Quando não matas, amputas...
Já não há sacis que baste?

Generais ditadores de mentes eqüestres,
senhores da guerra – imbecis
plantaram minas terrestres
e agora colhem sacis...

Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados 


sábado, 7 de janeiro de 2012

Quando eu for velho


Quando eu for velho, se for velho e não me for,
ainda irei, no fim, viver intensamente,
mesmo se o corpo esmorecer de tão cansado;
A mente intensa há de querer frágeis lembranças
ainda quando me faltar massa cinzenta.
E embora velho e sem memória e sem vigor
verá, quem queira, por detrás do olhar distante
meu eu menino saltitando em poças d'água.


Quando eu for velho, se for velho e não me for
terei vencido tudo mais - estarei pronto.
E ao me livrar do velho corpo estarei rindo
das desventuras que hoje penso ter vivido.
Ah! velho tonto! É-me tão bom quando me ensinas
e me preparas ao futuro que eu te lego...
E se eu me for antes de ter envelhecido,
guarda meus sonhos junto aos teus... Depois eu pego.


Errante


Perdi-me de mim na encruzilhada dos anos
enquanto estive só...
Dias sem sol, noites sem lua
e uma nua realidade envelhecida!
A vida qual estrada no deserto
e eu me cobri do pó da nulidade
de não ter mais a mim ou mais alguém;
Viver era um exercício da vontade...

A vida se desfez no pó dos anos,
no pó dos planos desfeitos,
no sufocar do peito e no ardor dos olhos;
vida seca - desertificação de sentimentos
e secura das lágrimas (ou mágoas)
numa estrada de pó;
é triste estar só e mais triste ser só...

Cruzei quarenta anos de deserto
e não me sinto certo de onde estou;
Será que um dia chega?
Será que me alcança
a parte de mim que ficou?

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais Reservados

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Logradouro



Sempre bem-vindo às tantas ruas, logradouros
onde, solenes, meus amigos já distantes
deixam seus nomes, e lembranças – meus tesouros
dos tempos idos, companheiros, militantes.

Mas, se caminho sem pesar e é reconforto,
ao mesmo tempo em que divago, me entristeço...
Sabê-los parte do que é vivo e do que é morto
É meio e fim; eterno e, sim, um recomeço.

Quando for hora – e não por hora! – que eu não dê
nem que se queira, numa forma de homenagem
meu nome a beco lá na terra do Dendê
onde praticam anual rito: a lavagem...

Já fico aflito de pensar nos foliões,
bexigas soltas nas calçadas e portões...

Prefiro a honra de poder manter-me seco
a dar o nome de Bemvindo a qualquer beco!

Deem meu nome à ruazinha sem saída
que tenha a esquina na Avenida da Saudade
e desemboque no Jardim da Liberdade;
igual àquele que plantei com minha vida!




Ao ator e cidadão Bemvindo Sequeira, baseado no texto de sua autoria, publicado em seu blog ( clique aqui para ler ) em 03/01/2012

sábado, 31 de dezembro de 2011

Inconformismo



Não! Eu não me conformo com o visto, o sentido e o não-sabido...
Não me conformo com a fome e o desperdício
enquanto a Bolsa de Futuros brinca de destino...
Não me conformo com a morte pelo vício
e escravidão de meninos soldados em luta.
Não! De modo algum eu me conformo
com as meninas sem bonecas brincando de putas.
Com nada disso eu me conformo...
E todo o meu inconformismo
é tão-somente um grito sufocado na garganta
e, se nada faço – nada mudo.
De que adianta?
Minha revolta é franca, é verdadeira
e não me conformo,
mas a cômoda bunda não se levanta
e permanece inconformada na cadeira!

Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados (exceto, talvez, pelo título)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Os versos que te fiz

Depois, quando eu me for, guarda contigo
o verso que te fiz apaixonado;
o verso que te fiz ao ser amigo;
o verso que te fiz sem ser amado.


Depois, quando eu me for, procura abrigo
no verso que te fiz quando ao teu lado;
no verso que te fiz que ora bendigo;
no verso que te fiz quando cansado.


Depois, quando eu me for, vê se te esqueces
do verso que te fiz cheio de dor
no verso que te fiz cheio de prece.


Depois, quando eu me for, procura amor
nos versos que te fiz, e reconhece
o verso da saudade, quando eu for...


E eu que nunca lera Florbela Espanca...


Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados (exceto, talvez, pelo título)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Zumbi dos Palmares



De que valeu, Zumbi, a luta e a morte
se ainda a tua raça fez-se escrava
de um preconceito cada vez mais forte
enquanto a tua cor se misturava?

Ser negro já não faz mais diferença
porque a escravidão não tem mais cor
e nas favelas morte nem compensa
e vida muito menos tem valor...

E é estranho que em quilombos tão modernos
com água, luz, escola e traficantes
morreram aqueles teus sonhos fraternos;

os nobres ideais ficam distantes
e nem se chama mais isso de inferno,
tragédia bem pior do que a de Dante...


Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ainda sem nome



Ainda sem nome a poesia não pensada e não sentida;
e o verso rascunhado vezes sem conta
no verso da conta não paga...
Ainda sem nome e sem rosto - um esboço só do que seria
se fosse mesmo poesia ou fosse quase gente;
se fosse gerada, mas não! Ainda não!
Porque haverá um tempo em que a poesia aflore
ainda que eu não chore enquanto espere
no suceder contínuo de estações.

Por isso ainda é sem nome a poesia,
porque há fome sim; porém, sem ânsia
aguardo enquanto tarda ou que não venha...
Espero, enquanto posso, o despertar
da quase-poesia em minha vida
de fome insaciada - e do desejo;
moventes para um corpo estacionado
ou rio feito um lago estagnado...

Mas há de vir o dia em que ela nasça
e a dor que era vazio e que era ausência
não vai mais impedir-nos da existência;
e até hei de sorrir um riso torto
enquanto volta à vida o que era morto;
enquanto aprende o mar quem só foi porto...

E mesmo sem ter nome e sobrenome
será reconhecida a cada passo
em seus traços herdados - meu genoma...
A minha poesia - ou quase um eu!

Reinaldo Luciano © Direitos Autorais Reservados

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Pintura






Pintura


Passo calado diante da favela
e da janela do ônibus lotado
um denso morro e um povoado intenso;
e atordoado penso: a vida é bela.
Fosse eu Picasso, que quadro pintaria!
Reduziria para dois metros quadrados
toda a miséria do quadro da janela.



Reinaldo Luciano © Direitos Autorais Reservados

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Salobra



Eu transpirava a poesia em cada poro...
mas hoje, eu nada escrevo,
de nada eu me admiro
e choro um choro que não devo.
Eu nem me inspiro mais - acho normal.
E a poesia escorre pelo rosto
com um gosto de sal...

Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados 

Cardiopoética

(a que dá nome ao blog)



Minha veia poética não é cava
antes aorta torta e obstruída
antes safena em plena cirurgia
antes infarto do que parto
na difícil escolha pela vida...

E não se iluda o peito ainda pulsante
que onde fluía um dia a verve amor
já nada presta e resta a dor apenas
que silencia a poesia
mas, mesmo morto, o peito sente dor... 




© Reinaldo Luciano - Direitos Autorais Reservados

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Soneto Nada Sentimental à Cidade de São Paulo


Xenofobia travestida em tuas ruas
contra destinos, nordestinos, diferentes
te torna exposta e sem resposta te insinuas
mas não te cegas, nem renegas estas gentes.


Te desvarias noite e dia em cores cruas
nos desatinos que aos sem tino faz doentes;
mas não te cansas - sempre avanças, não recuas...
Segues sem culpas, sem desculpas, sempre em frente.


Viste o descaso com que os rasos governantes
abarrotaram, asfaltaram as tuas veias
mas inda anseias que elas fluam como dantes...


Sopras as velas das mazelas, mas se chove
neste Janeiro (o derradeiro?), em ruas cheias,
quem não flutua e quem não voa não se move.


Reinaldo Luciano © Direitos Autorais reservados

Escrito no aniversário de São Paulo, que em 2011 não tem o que comemorar!


http://www.brasilianas.org/blog/reinaldo/soneto-nada-sentimental-a-cidade-de-sao-paulo