domingo, 3 de março de 2013

O mundo é um Ó



Olhai, obtusos ornejantes,
o oráculo onírico e obsedado,
oculto e obscuro, observando
o ósculo da ocisão!
Orai! O ócio obscurece
as ocas órbitas oculares
e os orifícios odientos
ousam obsecrar o óbolo de ontem...

Ofendi-vos? Ótimo!
Ossos do ofício...

O orbe é o ômega
e eu, o ogro orbícola
ostentando ouro em ombros oberados...
Obceca-me o ônus do óbito – o ocaso
e o oásis do olvido...
O óbice ao objetivo
é ouvir a ofensa e o opróbrio
e omitir-me!

Onde obter os ornatos do opúsculo ordinário?
O original obliterado
na obediência ordenada – opressiva!
Ouso obrar de oitiva:
o orbe é um ó!

Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais reservados

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Verdades


Conheço cada palmo do teu chão
como da minha mão conheço a palma,
como da calma eu só conheço um não,
como conheço o preço de minha alma...

Conheço, da saudade, no teu seio,
em cada veio, um traço de verdade,
como a vontade de um suave enleio;
como se um meio de não ter saudade...

Conheço o laço da que me aprisiona
como se dona fosse do meu passo,
mas que ao espaço vago me impulsiona...

Conheço a lona... E tombo e me desfaço
como estilhaço – mina que detona
e que abandona o peito em mil pedaços.

Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais reservados

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Invisíveis versos



Escrevia versos com meu peito em luta
e a verter as lágrimas mais dolorosas...
Era uma catarse a que me sujeitava
pondo no papel; e eu registrava tudo
quanto a minha mente ousou dizer um dia...

Mas, lágrimas secas no papel manchado
jamais decifradas, no passar dos anos
foram esquecidas e ninguém as leu;
ninguém soube a dor que as tornou possíveis
nem soube dos versos que ali se escreveu...

Invisíveis versos, frases sem sentido,
sonhos impossíveis que o tempo venceu...
Se ao menos pudesse não tê-los sonhado
e tivesse amado sem tê-la perdido
ou se ainda pudesse lhe dizer adeus!


Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais reservados




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Diário vermelho



Nesse diário rubro em sangue eu traço
cada pedaço de um viver tão vário
desde a nascença, quando era fedelho.

Nesse diário eu cubro cada espaço,
registro abraço, adeus; confessionário
da vida intensa olhada ante um espelho.

Meu breviário incréu por mim escrito
sempre repito e não temo o fadário
e me recuso à verga dos joelhos.

É meu diário. O sangue é minha tinta
e amor que sinta ou dor, tudo é precário
mas não me escuso de seguir parelho;

e se em vermelho eu tinjo o meu diário,
gravo em sudário a marca de meu rosto
e, tudo posto enfim, me destrambelho.

Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Um eu que escreve e sente


Não penso nada que escrevo
e nem escrevo o que penso.
Sinto o pensamento escrevendo
enquanto observo em silêncio
tentando não deter a inspiração...

Não penso! Não devo...
Apenas sinto acontecer
e nem escrevo em minha mente,
mas vejo uma parte de mim – indiferente
que continua a escrever...

Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados

domingo, 7 de outubro de 2012

Indene


Eu não passo indene pelo crivo crítico
dos letrados sábios – mas tão inscientes
quando ao verbo escarnam... São as doutas mentes,
alfarrábios vivos, entes analíticos!

Não! Não passo indene... São tão reticentes
porque desagrado aos seus poderes míticos
com meus balbucios quase neolíticos
de uma protolíngua não mais existente...

Assim posto, algures, volto à mendicância
da orfandade em letras, pobre de diplomas
e fadado às penas desta ignorância!

Eu não passo indene... Minha voz não soma
e volto, ingerente, para a militância...
E os doutores voltam às suas redomas...


Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Bomba II



Senhora anosa e incompreendida
do alto dos seus 65 anos
desde que abriu-se em flor sobre Hiroshima.
A irmã mais nova em Nagasaki
de olhos tristes,
puxados
fechados
mortos...

As irmãs japonesas made in USA
quase esquecidas...
e outras tantas irmãs envelhecendo
aguardando a sentença iraniana
da forca ou do apedrejamento
por terem sido infiéis,
adullterinas
flertando com os filhos de Abraão...

A mãe de todas as bombas fez 65 anos
e não há o que comemorar!


Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Se tiver que aceitar


Se aceitar Jesus for ser igual a ele
vou beber,
andar com vagabundos,
conhecer mulheres perdidas
e achar que estou salvando o mundo
da hipocrisia de mim mesmo.





Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados

domingo, 15 de julho de 2012

Poema mecânico III


Este será um poema não escrito,
mas acidentalmente registrado:
O mecânico de trens está descarrilado
e ilhado na dor, mas tem tentado
achar de novo o trilho do infinito
e o apito do trem que nunca passa;
maria-fumaça desvanecida entre as montanhas
como narcótico em minhas neuróticas entranhas...
Eu vejo aranhas e vejo o nada
da vida inteira esfacelada pelo trem
e a mente fendida ainda se ofende
quando alguém diz saber como ela passa
e que entende o gosto amargo da fumaça
da inspiração do além - meia ilusão,
meio caminho entre a loucura e a razão,
meia passagem paga,
e a vida meio chaga em outra espera
talvez na próxima estação!


São quatro e vinte! Tudo está bem,
exceto eu – e talvez o trem!


ReinaldoLuciano©





quinta-feira, 12 de julho de 2012

Dor vazada



(eu quis fazer um poemeto)

Minha dor não coube em cinco versos!
Não coube em doze...
E vazou para um soneto.

Reinaldo Luciano ©Direitos Autorais Reservados